Em 2002, se você quisesse vender um software, não tinha link de pagamento, não tinha checkout, não tinha "compre agora". Tinha uma caixinha de CD, um porta-malas lotado, e um mapa de cidades pela frente.

Eu desenvolvia cada sistema em Delphi, gravava os CDs, montava as caixas — Controle Veterinário, Controle p/ Lanchonetes, Controle Bancário, Controle Imobiliário, e mais uma linha inteira de produtos da Master Software, o nome que minha empresa usava no mercado naquela época. E depois pegava o carro e saía rodando.

De Cambará para quatro estados

Não era só nas cidades vizinhas, não. Eu rodava com o carro até Londrina e Curitiba, no Paraná; até São Paulo capital, Bauru, Jaú, Pederneiras, Ourinhos e Marília, em São Paulo; Guaratuba e Matinhos, no litoral paranaense; e ia até Belo Horizonte, Porto Alegre e Laguna, em Santa Catarina. Tudo de carro, o porta-malas cheio de caixas, batendo de loja em loja de informática em cada cidade.

E eu não ia sozinho. Minha esposa, Michele, estava sempre junto, em todas essas viagens — nas estradas, nas lojas, nas esperas.

Era trabalho de dois, mesmo que o nome no CNPJ fosse só meu.

Quando a porta batia na cara

Nem toda visita virava venda. Várias vezes eu levei porta na cara — literalmente, o dono da loja nem queria conversar. Michele via tudo isso de perto, ao meu lado. Mas eu nunca desisti, porque essas cidades tinham mais de uma loja de informática: uma fechava as portas, outra abria. Sempre tinha um próximo lugar pra tentar, um próximo dono de loja pra conversar.

A maquininha que não tinha internet

Quando o cliente pagava no cartão, eu usava uma maquininha Redecard totalmente mecânica — sem internet, sem chip. Era um leitor de carbono: passava o cartão, e ele decalcava os números num formulário de papel, em várias vias picotadas.

Maquininha de cartão manual Redecard, guardada com a caixa original
A maquininha Redecard, sem internet — guardada até hoje, com caixa e tudo.
Comprovante de venda em papel da Redecard, formulário em branco
Comprovante de venda em papel: cada campo, preenchido à mão.

Decalcar não autorizava nada, porém. Pra confirmar que a venda podia seguir, eu precisava telefonar pra uma central de autorização e ditar o número do cartão manualmente, dígito por dígito. Só depois do código de autorização — que eu anotava à mão no formulário — a venda estava, de fato, fechada.

Ainda tenho essa maquininha guardada. Na caixa original, inclusive.

Cheque sem fundos e "vá procurar seus direitos"

Nem todo pagamento era no cartão. Muita gente pagava em cheque — e mais de uma vez recebi cheque sem fundos. Quando eu voltava pra cobrar, a resposta era sempre parecida: mandavam eu ir atrás dos meus direitos, procurar a lei, se quisesse. Na prática, isso significava uma coisa só: eu tinha vendido o sistema, entregado o CD, e não recebia nada por ele.

Não tinha proteção, não tinha estorno automático, não tinha como saber antes se aquele cheque ia compensar. Era prejuízo puro, e eu seguia em frente assim mesmo.

O que mudou (e o que não)

Hoje, fechar uma venda é instantâneo: o Mercado Pago processa a assinatura, o pagamento é confirmado na hora, e o cliente já está com o sistema rodando antes de eu sequer saber que a venda aconteceu. Nenhum cheque, nenhuma maquininha de carbono, nenhum telefonema pra central de autorização — e, principalmente, nenhum risco de vender e não receber.

Talvez seja por isso que eu sempre dei tanto valor a ter um controle financeiro automatizado e confiável nos sistemas que desenvolvo hoje. Eu vivi, na prática, o que é vender sem ter certeza de que vai receber.

Mas tem uma coisa que não mudou: o CNPJ. A empresa que rodava de carro por quatro estados vendendo aquelas caixinhas é a mesma que hoje está por trás do ContaFácil, do Postei, do Studio Pro e dos outros sistemas que uso pra ajudar pequenos negócios a se organizarem. Mudou o nome no mercado, mudou completamente a tecnologia — mas a essência ficou a mesma: continuar tentando, mesmo quando a porta bate na cara. E continuar tendo a Michele ao lado, topando essa jornada junto comigo desde o início.

Se você quiser ver mais dessa trajetória — incluindo as fotos da caixa, da maquininha e até do código original em Delphi — eu contei essa história com mais detalhes na página Nossa História.